Sábado, 5 de Novembro de 2011

José Agostinho de Macedo e as "Lettres Portugaises"

            José Agostinho de Macedo – I

José Agostinho de Macedo (11/09/1761 - 02/10/1831), natural de Beja, faleceu em Lisboa, onde tinha professado, em 1778, na Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, à Graça. Dado o seu espírito ainda jovem e irrequieto, nada adequado às normas da Ordem, e, ainda por cima, acusado e condenado pela justiça como autor de várias acções criminosas, como ladrão e frequentador de locais de prostituição - suspeições ainda por averiguar convenientemente, para que a verdade histórica seja reposta com justiça -  foi expulso quatro anos depois, considerando-o, os seus superiores, contumaz e incorrigível. Dispensado dos votos monásticos, torna-se um pregador notável para o seu tempo. Membro da Nova Arcádia, inimigo da Revolução Francesa (1789), portanto dos jacobinos, integrou mais tarde a Arcádia de Roma adoptando o pseudónimo de Elmiro Tangideu. Escreveu bastante, sobrepondo-se, na sua vasta obra, os textos políticos, defensores do regime absolutista contra os liberais, e a poesia épica, no “género” da dos Lusíadas. Bocage e Almeida Garrett foram alvo da sua natureza polémica e permanentemente descontente.
O historiador e político Oliveira Martins (1845-1894), na sua obra “Perfis”, de 1886 (editada postumamente em 1930),  teceu algumas considerações importantes sobre a vida e a obra do incompreendido “foliculário, […] fundador entre nós do jornalismo político, com o Desengano, com a Tripa Virada e com a Besta Esfolada, de que chegavam a tirar-se quatro mil exemplares! […] Os tempos tormentosos da passagem dos séculos XVIII para o XIX, com o esboroar de todas as coisas, desequilibraram o pensamento e o carácter desse homem poderoso, cuja força se perdeu num dilúvio de vulgaridades, numa indigesta montanha de folhetos, de jornais, de sermões, de cartas, de poemas e de versalhada, medíocre, mas espantosa, pela quantidade – um Himalaia, de calhaus rolados! […] Elmiro, com a batina desabotoada, as ventas largas cheias de rapé, abordoado a uma bengala, membrudo, violento, ossudo, desbragado, dava murros no balcão gorduroso dos Bertrands, ao Chiado, enchendo Lisboa com o estrépito das suas polémicas e com a fama da sua vida airada.
Andava amancebado com uma freira de Odivelas; passava as noites em arruaças e bebedeiras. Acusavam-no de ter furtado livros da livraria dos Paulistas, o que provavelmente era calúnia.
Fabricava poemas: O Oriente, o Gama, A Meditação, Newton, A Natureza, para não falar nos Burros, traduzindo numa linguagem friamente convencional, sem génio, sem colorido, as sensaborias banais do racionalismo naturalista do tempo. Fazia comédias, pregava sermões. Ensaiava o drama burguês moderno, inventado por Diderot, com a Clotilde e o Vício sem Máscara, e alinhavava dissertações filosóficas. A sua veia porém, a sua vocação, era a polémica. Inventou o jornal, nacionalizou o panfleto. Foi o mestre de S. Boaventura, autor do Mastigóforo, e de Alvito Buela, o autor do Cacete.”
Oliveira Martins finaliza o perfil de José Agostinho de Macedo defendendo a razão de ser do seu carácter tão singular do seguinte modo: ” apesar da sua banalidade, da sua monstruosidade cínica, apesar de tudo, foi Alguém. O povo amou-o, sentiu pelos seus nervos, falou pela sua boca. Porquê? Em primeiro lugar, porque o povo português, enervado por três séculos de decomposição, estava retratado na figura do padre. A força que ainda tinha esvaía-se toda em pedir arrocho, e em arrastar os cacetes apostólicos pelas portarias dos conventos e pelas vielas imundas das marafonas, cambaleando ébrio de cólera, e também de vinho frequentemente. Mas, em segundo lugar, a razão é outra. Dois homens podem entender-se para praticar uma traficância; muitos, é difícil – todos, nunca. Um povo pode ser cínico, mas não pode ser patife. Há sentimentos exclusivamente individuais, e a patifaria é um desses. Se um povo pratica acções criminosas, é porque perdeu a consciência do que seja crime. O povo é sempre sincero.
A sinceridade, eis aí o segredo de José Agostinho; a franqueza foi a sua força; o desinteresse, a origem do seu prestígio. O cinismo desbragado, isto é, a sinceridade e a franqueza levadas até à impudência, com aquele desaforo dos que, não tendo vergonha têm o mundo por si, foram a nota dominante e a faculdade íntima do polemista que se achou desse modo num perfeito acordo com o povo. Plebeu, sem perfídias de civilizado, rústico, sem ambages de político, foi um arrieiro das letras, é verdade, mas não foi um chatim.
Cobiçava a fama, cobiçava a popularidade mais vulgar; mas não cobiçava o dinheiro, ídolo exclusivo dos dias de hoje [Oliveira Martins dizia isto no final do século XIX e, hoje, ultrapassado o século XX, o dinheiro não continua a ser o mote da canção de embalar dos políticos e dos oportunistas?] . Viveu sempre quase mendigo. As letras e o púlpito davam-lhe apenas para não morrer de fome. Era, a valer, o tipo do demagogo antigo ao lado de D. Miguel que reproduzia a imagem dos velhos tiranos lacedemónios do Peloponeso ou da Sicília. Além disso, levava sobre os dias de hoje e sobre os nossos foliculários outra vantagem: as suas verrinas não eram postiças, convencionais. Havia ódios, o que não deixa de ser um bem quando há antagonismos fundamentados. A imprensa não era ainda uma comédia representada para ilusão da galeria. Quando se jogavam injúrias, arriscavam-se facadas e tiros. Era sério. Finalmente, havia uma outra vantagem, se comparamos a Besta esfolada às Tripas viradas dos dias de hoje: é que as injúrias inflamantes, os insultos obscenos, as verrinas descompostas, dirigiam-se a um partido odiado que, de resto, pagava na mesma moeda, em vez de se dirigirem como hoje, que tudo são questões de pessoas, a fulano ou sicrano, portadores, quando muito, de uma individualidade incómoda ou de um interesse cúpido.
Estudando comparadamente o jornalismo português com meio século de intervalo, vemos que a tradição de José Agostinho se mantém nuns pontos e se oblitera em outros. Oxalá seja para melhor!”
Nas suas “Cartas filosóficas a Attico” (edição da Impressão Regia de Lisboa, de 1815), Macedo desenvolve, entre muitos outros temas de carácter militar, político, social, religioso, cultural e económico, o tema do provincianismo segundo a sua vertente do patriotismo. Tudo para impressionar uma das suas novas paixões, uma freira Trina… a dado passo, até julgamos que se refere a uma religiosa portuguesa, provinciana, também de Beja, que tem dado que falar. Ilusões do gosto e do nosso ofício, sem dúvida.
Leonel Borrela

Publicado no jornal Diário do Alentejo em 17 de Agosto de 2007.


 José Agostinho de Macedo – II


Como vimos, José Agostinho de Macedo (11/09/1761 - 02/10/1831), natural de Beja, foi o grande polígrafo dos começos conturbados do século XIX português. Nas suas “Cartas filosóficas a Attico” (edição da Impressão Regia de Lisboa, de 1815), desenvolveu, entre muitos outros temas de carácter militar, político, social, religioso, cultural e económico, o tema do provincianismo segundo a sua vertente do patriotismo e enalteceu também, a seu modo, as virtudes intelectuais da mulher.
As suas vinte e sete Cartas foram escritas para impressionar uma das suas novas paixões, uma freira Trina (ver página inicial da dedicatória), D. Joanna Thomazia de Brito Lobo de S. Paio, natural de Moura, “sua Pátria”, a qual não deve ser privada de “uma gloria que é sua, que é nossa, que é do Reino, e a sua ilustre Religião[1] de mais um timbre”, […] que “sabe unir muito bem a virtude e a ciência; e quando é constante esta união, e esta harmonia, não deve ter clausura o seu nome, nem devem ficar na sombra do Claustro seus conhecimentos, é justo que veja o mundo ilustrado a razão com que os admiro, e até a razão com que os invejo. O sentimento delicado é próprio do seu sexo, é regra dos seus juízos, e poucas vezes se engana, e nestas ocasiões sentimentais sobre as obras de puro engenho, não leio uma só carta de V. S. que a não compare, para a preferir, à mais bem lançada de Sévigné.” (1815, pp inumeradas da dedicatória).
A Carta XVI, pp.213 a 230, discorre sobre várias noções de patriotismo e a noção de grandeza daqueles que vivem nas grandes cidades. Macedo valoriza a História como repositório de lições que se devem consultar para melhor orientação dos homens nos seus actos políticos, comerciais e culturais. A dado passo, referindo o vanglorioso e excessivo patriotismo que se vivia na Atenas clássica ao ponto de uma “revendona” da praça não reconhecer os literatos estrangeiros, Macedo narra o seguinte: “Li, não sei em que livro, que celebrando-se diante de uma matronaça de Paris os olhos formosos, serenos, e alegres de uma rapariga que tinha nascido longe de Paris, pronunciou gravemente que ela conhecia aquela rapariga, e que ela confessava que com efeito tinha bons olhos, mas que eram bons quanto os pode ter bons uma pessoa de Província: não cito o nome do livro, porque me não lembra, mas posso, meu Ático, certificar-vos que com efeito li isto com estes meus dois olhos, que não tiveram a ventura de nascer em Lisboa, mas em Beja, e por isso ficam sendo olhos Provincianos. […] o que me impacienta é o célebre La Bruyere, que, em seus caracteres feitos para emendar os homens, censura as pessoas que nasceram nas Províncias, porque não têm polidez, e luzente verniz das que nasceram em Paris. […] Contudo, as grandes Cidades terão sempre maiores vantagens, e prerrogativas que as pequenas, e quem nasce no meio de uma populosa Corte acha de ordinário com mais facilidades preparados os meios para uma boa educação, e para o estudo das boas artes e disciplinas. Mas porque vós nascestes em Lisboa, e eu em Beja, tendes acaso razão de vos entonar, e ensoberbecer pela magnificência publica? Deveis acaso julgar-vos grande porque Lisboa tem grandes praças, grandes ruas, grandes Templos, e grandes Palácios? E eu, porque nasci em Beja, devo acaso reputar-me um mesquinho mal olhado da ventura, porque permanecendo e vivendo naquele sombrio município Romano, não acordo alvoraçado depois da meia noite com o estrepido das carruagens que saem do Teatro, ou porque não desperto sobressaltado de madrugada com o motim dos pregões, e burburinho da gente? E serão para mim sem sabor os passeios por aqueles extensos e despidos campos, porque uma onda de povo não me leva em si, e outra me traz contra minha vontade!”.
Macedo é deveras um atento observador do seu tempo. Julgava que a Pátria se deveria rejubilar por ser o berço de profundos e exemplares entendimentos, uma pátria das ciências, das artes úteis e liberais, e não uma pátria que se gabasse por ter alfaiates caprichosos, cozinheiros exóticos e cabeleireiros mais elegantes. Também na província era possível encontrar quem tivesse valor, quem fosse Alguém (como diria mais tarde Oliveira Martins), quem, no fundo, sabia muito mais do que contava, embora dissesse que já se não lembrava do nome do livro que lera, livro que era, afinal, o livro consistente, o do verdadeiro saber, ao qual se resumiam todos os outros: o conhecimento das leituras e das experiências de uma vida muito atribulada.
Em 1815, quando as “Cartas a Ático” foram editadas, já se conhecia, pelo menos em Paris, o conteúdo da nota do abade Boissonade, erudito francês, que trouxe para a ribalta, em 1810, o nome de Mariana Alcoforado como a autora das “Lettres Portugaises”. As Cartas de Macedo aludem a várias celebridades femininas como sejam as Mmes. de Stael e de Sévigné, ambas referenciando nas suas obras literárias as “Lettres Portugaises”, pelo que é muito provável que o autor tenha conhecido o tema e, até, reconhecido a importância de Mariana, bejense  como ele. Aqueles olhos bejenses, provincianos, simples e verdadeiros, aliados incondicionais da paixão, bem poderiam ser os dela…

Leonel Borrela

Publicado no jornal Diário do Alentejo em 24 de Agosto de 2007.



[1] Este termo, Religião, escrito assim, ainda em 1815, para qualificar a devoção católica da religiosa, é muito importante para a análise da autenticidade das Cartas Portuguesas atribuídas à freira bejense Mariana Alcoforado, pois têm sido vários os autores/opositores da tese Alcoforadista que o têm apresentado como um termo quase impossível de utilizar, naquele contexto, por uma religiosa portuguesa no século XVII.




Nota: Adquiri hoje e conclui a leitura da obra de António Mega Ferreira intitulada "MACEDO - Uma biografia da infâmia", recentemente editada pela Porto Editora, Outubro 2011. É um belíssimo trabalho de pesquisa sobre a vida e a obra diversificada do grande polemista bejense e do contexto histórico que o envolve. As imprecisões sobre o aspecto, a história  e  a localização da casa onde nasceu Macedo, que era uma simples casa de um só piso e não de dois (resultado das obras realizadas, cerca de 1848,  por Sousa Porto para a primeira imprensa lito-tipográfica de Beja), portanto, muito menos "nobre" do que o autor julga - na qual não está provado que tenha vivido Jacinto Freire de Andrade, nem vai dar à praça do município bejense - em nada interferem na coerência da obra que examina em pormenor a provável origem alfacinha do truculento padre, a sua relação com os seus contemporâneos, amigos e inimigos, o seu lado mais violento e detestável na política, mas também a sua sagacidade na previsão, por exemplo, das consequências políticas da fuga real para o Brasil, aquando das invasões francesas, assim como a sua ambição em querer ser o melhor, nomeadamente na poesia, a turbulência dos seus amores, etc.. 

Mega Ferreira considera, a p.159 da sua obra, que as "Cartas Filosóficas a Attico" - das quais destacamos na nosso estudo, acima apresentado, alguns excertos da  carta XVI - "são do melhor, mais razoável e contidamente argumentativo que saiu da pena de José Agostinho" e que (p.151) se lhe dessem a escolher uma mão cheia de escritos do padre que quisesse levar para uma ilha deserta, desprezaria quase tudo, mas levaria com ele, embrulhados em duas ou três das melhores peças da sua correspondência, e na IV e VII das suas Cartas Filosóficas a Attico (que tratam do belo e do sublime, respectivamente), os quatro volumes in-octavo do Motim Literário, que reúnem fascículos dos Solilóquios dados à estampa em 1811, em entregas semanais. Em suma, levaria a sua autobiografia como já a entendera Teofilo Braga, o retrato do "possante polígrafo e o Homem, de letra e de corpo inteiro."


LB








Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

Guilleragues`letters?

It's incredible how Gabriel Joseph avergne De Guilleragues is still considered the author of "Lettres Portugaises" (1668-1669). We know today that the manuscript that you assign the authorship of the letters is flawed and that there are other publications that are improperly assigned. You should consult the "birth of the writer" Alain Viala, French scholar of seventeenth-century records and their errors and omissions. Antoine Galland, followed the advice of Guilleragues, translating the "Arabian Nights" in 1704. In the memoirs written about Guilleragues, Galland not do it justice, do not you assign the authorship of Portuguese letters. Do not mention them when he praises his patron and mentor. Boileau, the chief of the French poetic satire also does not make you such a compliment, as none of his friends and acquaintances. This is the truth. The letters are Alcoforado Mariana, born in Beja (Portugal) in 1640, a nun of the convent of the Conception, where he died in 1723.


France gave Portugal the author of love letters. He wrote that were translated from Portuguese to French language. All contemporary critics have accepted them as Portuguese. Boissonade, French scholar, discovered and disclosed the true name of the nun, Mariana Alcoforado. Portugal did not ask anything. Everything was given by France.



by Leonel Borrela, Portuguese author of a study on the authenticity of the Portuguese lettres.

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

Janela de Mértola I e II



A Janela de Mértola I

A celebridade da Janela de Mértola ou de soror Mariana Alcoforado advém de uma passagem textual da quarta das cinco cartas de amor dirigidas a Noel Bouton, militar francês, mais conhecido por Chamilly ou marquês de Chamilly (este nobre francês é apenas um de entre os muitos milhares de estrangeiros, também ingleses e alemães, que auxiliaram Portugal, por questões de poder e política anti-castelhana, na luta contra o domínio espanhol, entre os anos de 1640 e 1668). A ardente paixão teria ocorrido, já no final da Guerra da Restauração de Portugal, entre os anos de 1666 e princípio de 1668. Durante 1668, Chamilly teria recebido cinco cartas, as únicas que se conhecem e que foram seleccionadas e editadas por Claude Barbin, livreiro parisiense, em Janeiro de 1669, sob o título de “LETTRES PORTVGAISES TRADVITES EN FRANÇOIS”.

O Convento de Nossa Senhora da Conceição havia sido fundado cerca de 1459 pelos primeiros duques de Beja, os Infantes Dom Fernando e Dona Brites, para albergar religiosas de clausura rigorosa da Ordem de Santa Clara, sob jurisdição franciscana. Edifício de grande porte, foi crescendo, em área e volume, ao mesmo tempo que aumentava a sua população religiosa, atingindo em meados do século XVII mais de duzentas freiras, além de noviças, protegidas, criadas e escravas. Pelos bens materiais que possuía - além de uma nau para serviço particular, entre as várias regiões do continente e os arquipélagos dos Açores e da Madeira, de onde chegaram a vir toneladas de trigo para Beja, em anos de escassez - o Convento da Conceição foi considerado, por Frei Jerónimo de Belém, um dos mais ricos do país, senão mesmo o mais rico. As encomendas de obras artísticas de pintura mural e de cavalete, escultura e ourivesaria, mármores e talha dourada, azulejaria e tecidos, eram disputadas por uma comunidade aristocrata, poderosa e rica, que não se revia somente na que deveria ser uma humilde Casa do Senhor. Divididas entre os dois “partidos” conhecidos e bem documentados, de S. João Baptista e de S. João Evangelista, competiam com obras e festividades cada vez mais onerosas numa espiral descontrolada que acabaria, drasticamente, por lhes antecipar o fim, reforçado pelo Iluminismo e pelas ideias liberais e republicanas. Em Portugal, extintas as ordens religiosas, desamortizados (secularizados, nacionalizados) os seus bens, procedeu-se, no caso do convento da Conceição, após a morte da última freira, à sua demolição parcial, entre 1892 e 1895, restando actualmente cerca de 35% da área que ocupava e 20% do seu volume arquitectónico. Foi obra! Teria sido totalmente demolido, como já fora o Paço dos Infantes, Duques de Beja, se o bispo de Beja, D. António Xavier de Sousa Monteiro, não tem pensado em adaptá-lo a Sé, como divulgámos em crónica anterior. Era o progresso!

Até que enfim, a Janela de Mértola, apeada do seu lugar original aquando das demolições do final do final do século XIX… Já mostrámos anteriormente várias fotos e desenhos dela, mas queremos voltar a relembrá-la deixando algumas ideias, facilmente concretizáveis, aos cuidados das entidades estatais e autárquicas que tutelam o edifício histórico e o museu regional de Beja.

A janela, ou mais propriamente as grades de ferro da janela, facto e símbolo da clausura em que viveram Mariana Alcoforado e todas as religiosas do convento, e por extensão todas as religiosas do país, merece uma atenção diferente da que tem tido até agora. Há pouco mais de sessenta anos, a janela, então reconstituída num recanto do pátio do claustro, na área da antiga lavanda, enquadrava a laje tumular da família dos Alcoforados de Beja, circundada por uma moldura de azulejaria de Manizes. Era uma “salganhada”, própria da época, com o fim de homenagear Mariana – a laje tinha vindo do túmulo familiar que os Alcoforados possuíam na igreja conventual de S. Francisco (actual Pousada), os azulejos quatrocentistas eram do antigo coro baixo da igreja da Conceição.

Abel Viana não acreditava na história amorosa da freira, pelo que a janela pouco lhe dizia… ao contrário de Belard da Fonseca, o primeiro director, interino, do museu, que a defendia de todos os modos, a ponto de escrever o melhor trabalho que conhecemos sobre a autenticidade da autoria portuguesa das Cartas, atribuindo-as, e fazendo coro com outros autores, a soror Mariana Alcoforado (1640-1723). Sob os cuidados de Belard, a janela trasladou do recanto sombrio do claustro para o extremo do longo corredor do 2º piso, a antiga quadra dos Santos, ficando de novo orientada, embora cerca de trinta metros mais recuada, para o local das portas romanas de Mértola.

Até aí tudo bem, a janela gradeada já lá está há quarenta anos, vê-se razoavelmente bem do interior, embora só se distinga a grade de ferro a pouco menos de dois ou três metros. O problema consiste numa armação de madeira, colocada, entre a grade e a protecção de vidro, ao que parece com objectivos simbólico-ornamentais, descabidos para o fim em vista que, recordamos, é o de expor a janela com o aspecto mais aproximado que tinha quando se realizaram os levantamentos fotográfico (1890) e desenhísticos, em Fevereiro de 1894. Se, por um lado, a ideia de colocar a janela no local onde se encontra foi boa, infelizmente, por outro, mesmo de muito perto, gera-se a confusão entre a estrutura reticulada dessa armação de madeira e a grade de ferro. A juntar a esta amálgama visual, a própria protecção de vidro também está dividida em várias partes.

Como a janela de Mariana ou de Mértola é uma das principais janelas do Alentejo, cartão de visita incontornável do nosso património cultural, através da qual, mesmo assim, tantos visitantes exorcizam os seus males de amor, é urgente que se lhe devolva alguma da sua originalidade, retirando a armação de madeira que a “esconde” e colocando, no exterior, uma placa inteira de vidro por forma a permitir a visão integral da grade, por dentro e por fora.

O desenho é de Rosa Júnior, datado de Fevereiro de 1894, da colecção do Museu Regional, e mostra o aspecto que teria a janela de Mértola, vista de sul para norte, e de baixo para cima, próximo do local de entrada dos serviços municipais do SMAS, na rua Visconde da Boavista; reproduz-se também o frontispício da primeira edição, datada de 1669, das “Cartas portuguesas traduzidas em francês”, da oficina de Claude Barbin. O facto – a janela gradeada – e a fonte de informação.

In Diário Alentejo de 16 de Fevereiro de 2007.



Janela em 1890, foto de Camacho.  Colec. autor


                                            
A JANELA DE MÉRTOLA II

Como vimos, em crónica anterior, de 16 de Fevereiro de 2007, a janela de Mértola ou de Soror Mariana Alcoforado está actualmente situada no extremo do corredor do 2º piso do Museu Regional de Beja (MRB). No extracto de uma planta de 1870 que publicámos, em primeira-mão, na Iconografia de 20 de Junho de 1997, podemos vê-la na posição exacta que ocupava no extremo sudeste do convento da Conceição, virada para as portas romanas de Mértola. Dela viam-se, naturalmente, as duas grandes torres de protecção da entrada romana, assim como o grande túnel desta, integrado numa torre mais recuada, unida com as anteriores através de dois paramentos curvilíneos da muralha. Eram também visíveis as capelas de Nª Sra. dos Anjos e de Sto. António, mais as estruturas elevadas dos conventos de Nª. Sra. da Esperança e de S. Francisco.

Como sugerimos na crónica anterior, caso a janela venha um dia a ser desafectada das desconexas estruturas de madeira que escamoteiam as suas grades de ferro, será necessário contextualizá-la com uma pequena, sucinta e clara, exposição documental (enquadramento que já existiu, há pouco mais de vinte anos, organizado no final do anos sessenta do século passado, pelo então director da instituição, dr. António Belard da Fonseca). Exposição que deverá relembrar também os investigadores bejenses Manuel Ribeiro (Albernoa) e A. Belard da Fonseca (Beja) que trouxeram, respectivamente, para o debate da autenticidade portuguesa das “Lettres Portugaises”, documentação inédita e uma alegação ímpar, imprescindíveis como complemento da “Soror Marianna – A Freira Portugueza” de Luciano Cordeiro.

Um museu tem muitas vidas, assim como as colecções que nele se intentam preservar. O de Beja, instalado nos restos recuperados do Convento da Conceição (recuperados, isto é, dramaticamente conservados pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, porque se se atende aos azulejos - e destes nem vale a pena falar, tal é o seu estado de degradação, nomeadamente na quadra do Evangelista - não se atende à talha dourada da igreja conventual, ou à cobertura do edifício, nem à pintura mural. Um problema de conservação, gravíssimo, por resolver num monumento único em Portugal, que só por si, já tantos o têm dito, é um autêntico museu), já passou por toda a espécie de experiências museológicas, mesmo daquelas, ainda hoje visíveis, que pertencem a um tempo em que não se falava, tal como hoje se fala em profusão, da nova museologia. Embora os conceitos da nova museologia, quando aplicados a um edifício concebido de raíz para albergar um museu com determinado acervo, não constituam um embuste e sejam de facto necessários, encontram entraves naturais quando impostos a um espaço impregnado de memória-história, como é o caso do convento da Conceição.

Se actualmente o que resta do convento é, apesar da sua singularidade monumental, somente uma parte do antigo cenóbio e se a janela de Mértola, trasladada do seu local original, é o documento chave para a maioria dos admiradores das Cartas Portuguesas, atribuídas à religiosa que nele viveu e morreu, falta reorganizar, em conformidade com a história local, nacional e internacional (vale a pena relembrar o estatuto internacional das cartas portuguesas, com mais de 600 edições, entre periódicos e não periódicos, traduzidas para mais de trinta idiomas da América, Ásia e Europa, desde 1669 até aos nossos dias), e com os novos ditames museológicos, o espaço em torno da janela mais visitada do Alentejo (porque, do país, deve ser a janela manuelina do convento de Cristo, em Tomar, objecto - desde que o turismo é turismo, e, Portugal, a sede dos descobrimentos marítimos da era moderna - de muito maior publicidade). E não há que temer em se fazer uma coisa em grande, em Beja, no Museu, sobre Mariana Alcoforado, independentemente das conjecturas que os detractores da autenticidade portuguesa das Cartas possam utilizar.

Constatamos com agrado que as comemorações, em Beja, do dia de Portugal, em 2002, vieram pôr na ordem - com a exposição documental e de homenagem a Mariana, sobre a questão das “Lettres Portugaises”- alguns opositores da autoria portuguesa das cartas, que muito oportunamente afluíram a mostrar-se alardeando o seu dissolvido discurso, enquanto outros, em Beja, muito afectados pelo sucesso do certame, abraçam agora, muito humildemente (percebe-se bem a sua hipocrisia), a figura literária de Mariana. E nós sorrimos…relembrando, do genial Cruz Malpique ("Como se faz um escritor”. Lisboa: Livraria Popular, 1939. p.51), esta passagem: “Depois de um belo sermão sobre a caridade, exclamava um avarento: Que belo sermão! Dá vontade de pedir esmola!”

Portanto, a janela de Mértola, carece em permanência de um adequado quadro museológico que faça justiça à cidade e ao convento onde nasceu, viveu e morreu Mariana Alcoforado, satisfazendo tal propósito expositivo a documentação iconográfica – plantas, desenhos, gravuras, pinturas e fotografias –, obras literárias e as transcrições mais representativas das Cartas Portuguesas. Como complemento, relativo ao quotidiano do convento, ao tempo de Mariana, poder-se-iam expor algumas das peças de arte sacra do antigo convento da Conceição, as quais pertencem ao acervo do museu, não variando muito do que antes se expunha no mesmo espaço museológico. A edição de uma pequena brochura bilingue, em francês e português, devidamente prefaciada com o Estado da Arte e a Fortuna Crítica das cartas e com a reprodução da primeira edição de 1669, mais a colecção existente de nove postais sobre Mariana, constituiriam uma oferta digna ao visitante.

Em suma: convento, janela, exposição documental + livro e postais = visitante satisfeito.

in Diário do Alentejo de 30 de Março de 2007.














des. Rosa Junior 4 Fev. 1894

Colec. MRB



Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Espectáculo teatral sobre as LETTRES PORTUGAISES, interpretado por Katherine Mary, no Instituto Franco-Português, em Lisboa. Dias 16, 17 e 18 de Dezembro de 2010.

Caro(a/s) amigo(a/s)


Agradeço que divulgue(m) nos vossos blogues, sites e mailing liste, a realização, em Portugal, deste espectáculo teatral acerca das Cartas de Amor de Soror Mariana Alcoforado... e se puder(em) assista(m) a uma das sessões, entre os dia 16 e 18 de Dezembro deste ano.

Abraço de LBorrela





e-mail de Katherine:
Caro Leonel,
Na sequência da nossa conversa telefónica e agradecendo o seu interesse pela peça "Adeus d'après les Lettres de la religieuse portugaise", envio-lhe as informações relativas a essa criação teatral: ficaria honrada se viesse assistir ao espectáculo.
A nossa Companhia Art et Latte ficaria também feliz se pudesse apoiar a divulgação da peça, em Beja e não só, através do seu site da internet e da sua mailing list.
A peça que apresentamos é baseada no texto francês "Les Lettres de la religieuse portugaise".O texto foi editado em França sob a autoria de Guilleragues e a nossa Companhia tinha que nomeá-lo. Sei que não concorda, mas a autoria, assim definida, em França, não impede o debate sobre a origem do texto. Fiquei muito interessada no seu livro e nas pesquisas que fez... Gostava de pensar que Mariana Alcoforado escreveu as cartas.

Agradeço sinceramente a sua atenção e o seu interesse artístico.
Cordialmente
Catherine Mery



Compagnie Art et Latte


10 rue du Jourdain


75020 Paris - France


tel. 00 33 140 370 003


compagnie@artetlatte.fr


www.artetlatte.fr


Depois do sucesso do Festival Off de Avignon, onde recebeu o Prémio ARTE, a Companhia francesa Art et Latte, apresenta ADEUS segundo Les Lettres de la religieuse portugaise, em Lisboa, com a actriz Catherine Mery a subir ao palco do Instituto Franco-Português (Av. Luís Bívar, 91) de 16 a 18 de Dezembro às 21h00, de 2010.


O espectáculo em francês será legendado em português.


Bilhetes: 10€ e 7€.


Faça já a sua reserva: 961 96 02 81


artistasunidos@artistasunidos.pt


info@artistasunidos.pt


A companhia teatral francesa Art et Latte, com apoio de Artistas Unidos, leva à cena as cartas portuguesas de Mariana Alcoforado. Estas cartas foram escritas no sec XVII por uma freira seduzida e abandonada por um soldado francês, onde ela exprime a sua paixão: sentimentos de alegria, tristeza, espera, raiva, desespero, loucura e dúvida dão corpo a uma profunda reflexão sobre si própria.

A peça será representada por Catherine Mery no auditório do Instituto Franco-Português de Lisboa, depois de ter conquistado o prémio da ARTE no Festival Off de Avignon 2010 em França: « Entusiasmo da ARTE ! Exemplar desempenho da actriz que, sozinha em palco, dá voz às palavras dessa freira cheia de paixão (...) Essa incrível facilidade que tem de navegar na língua do Guilleragues (...) O seu olhar, tão claro, enaltece as palavras, e toca a alma dos espectadores. » O diário francês Le Dauphiné Libéré também deu uma menção honrosa à peça: « A actriz oferece com talento o amor paixão (…) O público experiencia diversas emoções, comovendo-se com uma personagem que toma consciência de que, no fundo, é a sua paixão que importa e não propriamente o ser amado. »

La compagnie Art et Latte et Artistas Unidos présentent en décembre la création théâtrale "Adeus d'après les Lettres de la religieuse portugaise" à l'Institut Franco-Portugais de Lisbonne. Abandonnée par l’homme qu’elle aime et livrée à la solitude, une femme choisit de se donner entièrement à la passion : elle se confronte à sa sensibilité et sa féminité, passant de la joie à la tristesse, de l'attente à la colère, du désespoir à la folie, du doute à la réflexion sur soi... A travers l’écriture, il devient pour elle essentiel de ressentir cette passion, seule respiration possible dans une société rigide, seule échappatoire vers la vie. « Pourrais-je survivre à ce qui m’occupe incessamment pour mener une vie tranquille et languissante ? Ce vide et cette insensibilité ne peuvent me convenir. »

Le coup de cœur ARTE du Festival Off d'Avignon 2010 : « Exemplaire performance de la comédienne qui, seule en scène, fait exister et résonner la parole de cette religieuse passionnée (…) Cette désarmante facilité qu’elle a de naviguer dans la langue de Guilleragues (…) Son regard si clair qui accroche les âmes de ses auditeurs à la suite de son récit, comme autant de poussières dans le sillage d’un corps céleste. »

Le Dauphiné Libéré : « L’actrice nous sert avec brio de l’amour passion (…) Le public passe par diverses émotions. Il est touché par un personnage qui va prendre conscience que c’est sa passion et non l’être aimé qui importe fondamentalement. »





Adeus, d'après les Lettres de la religieuse portugaise

16, 17 e 18 de dezembro às 21h

Espectáculo em francês legendado em português



Instituto Franco-Português

Avenida Luís Bívar, 91

1050-143 Lisboa



www.ifp-lisboa.com/index.php/agenda-detail/events/adeus-515.html

www.artetlatte.fr

MARIANA ALCOFORADO NASCEU HÁ 370 ANOS

Este texto ficou em rascunho e não saiu quando devia. Sai agora...


Mariana Alcoforado completou ontem, a 22 de Abril, mais um decénio do seu nascimento há 370 anos. Nunca é demais recordar uma realidade histórica que alguns investigadores menos formados e informados têm tentado escamotear, a propósito da autoria das célebres Lettres Portugaises, as Cartas Portuguesas traduzidas para francês, editadas em Paris, no dia 4 de Janeiro de 1669, pelo livreiro Claude Barbin. Embora seja assunto já conhecido de alguns dos nossos leitores queremos aproveitar este momento comemorativo para reforçar a importância que as Cartas tiveram e têm no contexto mundial, publicando no Diário do Alentejo um dos capítulos do nosso livro sobre Soror Mariana Alcoforado.

Fortuna crítica e Estado da Arte
Mais de quinhentas edições bibliográficas, em cerca de vinte e cinco idiomas diferentes, a nível mundial, justificam a singularidade epistolar destas cinco Cartas Portuguesas, cujas palavras desde há muito cativaram incondicionalmente os artistas plásticos - pintores, escultores, gravadores desenhadores e gráficos - além, naturalmente, dos de cinema e teatro, músicos e poetas, escritores e políticos, que lhes têm dedicado o melhor do seu tempo, do seu espaço e da sua memória. Afinal, a enclausurada Mariana Alcoforado; a janela das Portas de Mértola, em Beja; Noel Bouton, o marquês de Chamilly, oficial francês; a Dona Brites; a insegurança da guerra e o quarto em vez da cela conventual (no convento havia cerca de cinquenta e seis “moradias” particulares de freiras e, nele, rodopiavam cerca de duas centenas de religiosas, fora as criadas, e mais umas centenas de pessoas que no exterior prestavam serviço variado ao convento), tudo e todos existiram e é muito provável que tenham cruzado simultaneamente os seus caminhos.
Por curiosidade contámos, nas cinco Lettres Portugaises, uma só vez, as palavras claustro, irmão (dela), irmão e cunhada (dele), quarto, porteira, Manuel, Francisco, pátria (francesa), paz, país (Portugal), reino do Algarve e Mértola; duas vezes, convento e guerra; três vezes, Mariana e Dona Brites; quatro vezes, oficial francês e Portugal; dez vezes França. Amor, ódio, vingança, prazer, ciúme, partir, fugir, morrer, viver, injustiça, censura, coração, ferida, paixão, culpada, amasse, ama-me, habituei-o, família, ingrato, sinceridade, lágrimas, indecisões, pudor, adeus, cartas, mulheres, escrúpulos, razões, ternura, religiosas, violência, arrebatamentos, desafio-te, ai de mim, infeliz, são palavras escolhidas ao acaso que revelam a complexidade de estados de espírito e definem de algum modo a natureza emocional de Mariana.
Quando lemos as Cartas nada nelas nos parece ficcionado, muito menos por um homem, estranho a Portugal e, muito especialmente, à cidade de Beja. Guilleragues, o tradutor nunca contestado na sua época, a quem, agora, as querem atribuir, não possui sequer outras obras escritas que dentro do mesmo espírito, não literário , o possam legitimar como autor; são tantos os pormenores relativos a Beja, Portugal, Algarve, Mértola, portaria conventual, o poder da família, etc., naturalmente referenciados ao correr da pena pela presumível autora, Mariana Alcoforado, que praticamente não deixam dúvidas quanto à origem portuguesa das Cartas. Porém, a polémica continua e devem respeitar-se os seus pressupostos.
A fortuna crítica da Colecção Alcoforadina vê-se nas detalhadas cronologia, bibliografia e iconografia: de Madame de Sévigné a Rousseau; do duque Saint-Simon ao abade de Saint-Léger; de Boissonade a Luciano Cordeiro; do Morgado de Mateus a Manuel Ribeiro; de Júlio Dantas a Almada Negreiros; de Jaime Cortesão a Belard da Fonseca; de Humberto Delgado às Três Marias; de Katherine Vaz a Cristina Silva, etc.
O forte incremento da fortuna crítica revela abertamente o estado da arte: as edições das Lettres Portugaises estão imparáveis; continuam seduzindo uma plêiade heterogénea de investigadores e curiosos; subsiste a polémica em torno da sua autoria, cuja balança pende ultimamente para Gabriel Joseph de La Vergne, conde de Guilleragues. Algumas das bibliotecas estrangeiras – a do Congresso (EUA) e a Nacional de França – até a nossa, a Nacional de Lisboa, embora ainda com alguma indefinição, atribuem quase todas os exemplares das Lettres a Guilleragues. Igualmente, em instituições de ensino francesas, promovem-se jogos e concursos sobre as epístolas, enquanto por cá, oficialmente, vivemos indiferentes ao que, presumivelmente, de mais original se produziu em Portugal no século XVII e que tanta repercussão teve no estrangeiro, devido ao valioso contributo da língua francesa.
A celebridade das cartas e a polémica estendem-se a outros países e continentes e até já há quem faça trabalhos finais de licenciatura, teses de mestrado e de doutoramento por exemplo, no Brasil, Alemanha e Portugal.
No dia 10 de Junho de 2002, na cidade de Beja, por ocasião das comemorações oficiais do Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, em que foi homenageada Mariana como símbolo do seu desmesurado amor, recordou o senhor Presidente da Republica Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, o pensamento de Rainer Maria Rilke (1875-1926) acerca da sublime paixão de Mariana: Um amor grande de mais para um só ser.

- No Museu Regional de Beja continua em exposição uma mostra documental de cariz mais iconográfico comemorativa dos 550 anos da fundação do Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição - onde viveu e morreu Mariana - pelos duques de Beja, infantes D. Fernando e Dª Beatriz, pais de Dª Leonor e de D. Manuel. Merece uma visita atenta.


BORRELA, Leonel - "Iconografia Pacense-Mariana Alcoforado nasceu há 370 anos" in Diário do Alentejo de 23 de Abril de 2010


Lettres d`amour d`une religieuse portugaises ecrites au chevalier de C.oficier français en Portugal

Lettres d`amour d`une religieuse portugaises ecrites au chevalier de C.oficier français en Portugal
Pormenor da gravura de J Padebrugge 1696

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Calandrónio é um nome que vem epigrafado numa lápide funerária visigótica exposta no Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja. Num texto comovente Calandrónio chora a perda da sua sobrinha Maura, de olhos muito belos e formosa de feições, que mal fizera quinze anos. Por ser um documento pacense extraordinário,do século VII, repleto de sensibilidade, adoptei-lhe a memória. Leonel Borrela